Partilho contigo um texto longo, mas muito interessante, sobre a mente humana, traduzido por mim do livro “El pequeño libro de la Tierra, Iniciativas para un Mundo mejor” de James Bruges.
A REALIDADE, ALÉM DO NOSSO ALCANCE
O nosso cérebro não apareceu do nada, da noite para a manhã.
Evoluiu como os demais orgãos do corpo. Gradualmente, os que tinham maior habilidade foram substituindo os menos habilidosos.

A nossa bagagem mental, portanto, é apta a responder a necessidades específicas e está relacionada com os nossos cincos sentidos.
Não temos uma inteligência abstracta, desenhada para compreender a totalidade da existência.
Por mais que utilizemos a nossa mente para entender e manipular o mundo que nos rodeia, devemos entender que temos limitações.
Para compreender a natureza do nosso sistema mental, imaginemos um grupo de pessoas que carecem de um dos cinco sentidos. Por exemplo, um grupo de cegos de nascimento. Imaginemos que lhes falavam das cores, das nuvens, da neblina, da distância e da beleza? Como falariam entre eles destes conceitos? Alguns diriam que são mitos e negariam que existe a visão. Outros sentiriam-se terrivelmente frustrados por não poder perceber o que lhes contavam. Outros iriam querer obrigar os outros a aceitar as suas definições. Outros tentariam abrir caminho, aos poucos, até à compreensão.
Se o nosso sistema cognitivo se desenvolveu para satisfazer as necessidades dos caçadores-recolectores, é natural que alguns aspectos da realidade excedam a nossa capacidade de compreensão. Somos como os cães que somente captam parte do que dizemos: «Blá, blá, blá, Fido, blá, blá». Mesmo que, por vezes, pareça que percebemos a realidade distante através de uma espécie de lente de distorsão. Estas percepções ocupam místicos, poetas, músicos e pintores. A religião também tentou mostrar estas realidades com conceitos e palavras.
Os cientistas descrevem fenómenos que estão para lá da compreensão humana.
A física newtoniana e a geometria cartesiana são compreensíveis para os nossos cinco sentidos. Mas a física actual, não.
Sabe-se que a matéria está formada de energia, que se parece mais com uma rede de vibrações que se cruzam entre si do que com um conjunto de blocos sólidos. As partículas de energia ligam-se umas com as outras de formas misteriosas, que parecem não estar limitadas pelo tempo e pelo espaço.
Uma experiência pode modificar-se se se observa. Os cientistas sugerem que um universo de dez dimensões e um mundo inteiro de partículas de magnitudes subatómicas podem dar-nos as chaves para compreender a realidade. A verdade é que tudo isto escapa à nossa compreensão.

Se existisse um tipo de seres cujo sistema cognitivo fosse mais desenvolvido que o nosso, ririam-se ao ver-nos descrever certos conceitos que para nós são misteriosos, mas que para eles são claros e óbvios.
No entanto, também se alarmariam vendo de que forma a nossa tecnologia nos permite brincar com os elementos que somos incapazes de entender. Ver-nos-iam correr até ao precipício e gritariam “Por Deus, parem!”
In La Mente, Paolo Legrenzi
A isto acrescento que:
- A beleza é um conceito tão subjectivo que pode ser entendido por um invisual.
- Os cães são seres bem mais inteligentes do que aqui se diz, mas a analogia é válida para o que se tenta demonstrar.
- Cada vez mais seres humanos visitam outras dimensões e compreendem-nas.
